Oração também é grito

 

 

Você já ouviu aquelas gozações contra as pessoas que gritam em suas orações?

– Não precisa gritar….Deus não é surdo.

Pois é…….

O Salmo 107 é um hino/oração de gritos e ações de graças coletivos.

Há duplos refrões que se alternam durante todo o salmo:

E gritaram a Iahweh na sua aflição; ele os tirou de suas angustias

e

Celebrem Iahweh por seu amor, por suas maravilhas pelos filhos de Adão.”

Esse salmo revela que na Jornada da Vida não faltam motivos para gritar e agradecer.

Quero me ater ao grito por enquanto. 

Na remota mitologia dos cananeus o mar e o deserto recebiam o status de divindades cruelmente imprevisíveis e indomáveis.

Para aqueles remotos povos animistas o mar e o deserto eram deuses terríveis prontos para infernizar ou acabar com as vidas de todo aquele que se atrevesse navegar ou trilhar por seus domínios.

Lendo esse texto eu aprendo que nos desertos da vida nós perambulamos perdidos e sem rumo, castigados pela aridez severa em busca ansiosa por uma cidade habitada.

Mas é nesse deserto que Deus nos oferece direção e alimento.

É no deserto que Deus nos sacia a sede e satisfaz a fome.

É no deserto que ele nos ensina a usar o seu infalível GPS.

Mas o efeito nefasto do deserto nos seres humanos termina transformando peregrino em prisioneiro.

E sob a “não vida” do deserto, as nossas algemas, correntes e prisões com as suas portas e trancas se tornam desesperadamente reais.

O deserto faz aflorar a nossa rebelião essencial e o nosso desprezo pelos desígnios divinos.

No fundo nós não gostamos de sermos guiados por Deus, nós temos as nossas próprias rotas e itinerários.

Nós não conseguimos esconder a ditadura dos nossos apetites. Somos reféns da vontade visceral por todos os sabores possíveis e impossíveis.

E é lá nesse deserto desnudador que a nossa tolice existencial e a nossa repugnância ofensiva terminam vindo à tona enquanto as inevitáveis conseqüências de nosso viver egoísta nos sufocam e afogam.

Por isso nos assentamos acorrentados em trevas e sombras mortais e a vida se transforma em trabalho forçado e pesado, restando-nos apenas tropeçar e tropeçar sem que ninguém nos ajude.

No versículo 23, o salmista muda de ambiente, e do deserto nós somos lançados ao mar.

Há uma denuncia velada de que a opção pelo mar tem a ver com um perigoso “esse negócio só me diz respeito”.

A rebelião e abandono da grande bússola de desertos e mares me fazem lembrar os planejamentos e projetos denunciados por São Tiago:

Ouçam agora, vocês que dizem: ‘ Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo. ´”.

Assim parece que no Salmo os navegantes deslumbrados e independentes levantam âncoras e velas.

Mas o mar é como a vida e tem também os seus caprichos.

Quem perambulava sequioso agora cambaleio bêbado diante dos perigosos altos e baixos do mar caótico.

Dominados por um independente “navegar é preciso”, muitas vezes nos lançamos ao mar prescindindo da companhia do único que faz o seu caminho em tormentas pavorosas.

Diante da dominação do mar revolto nós perdemos a coragem e o equilíbrio e encaramos o fato de que as nossas habilidades são inúteis e improdutivas diante das tempestades da vida.

Nessa hora não tem pra ninguém! Não tem valentão, não tem camarada centrado e as nossas grandes habilidades são debochadas às gargalhadas pelas tragédias da vida.

O salmista revela que os que voltaram do cativeiro tiveram essas duras experiências com o deserto árido e sem vida e com o mar caótico sepultador de vidas.

Ele afirma que eles gritaram!

Seja lá qual for a forma, todo ser grita diante do desespero e aflição.

Quando eu leio isso eu entendo que não devemos nos fazer de rogados e que devemos gritar sem medo de ser ridículo ou parecer louco.  

Orar também é gritar.

As nossas aflições e angustias terminam definindo o grito de cada um.

Grite para – e nunca com – Deus, não tem nada a ver com tentar ganhar de Deus no grito.

Falo da verdadeira terapia do grito, eis aqui o mais catárquico dos gritos.

Em oração e súplica apresente o seu grito a Deus.

Lance o seu grito sobre Deus.

Segundo o salmista, aqueles camaradas gritaram e ficaram livres de suas angustias.

Eu não sei você, mas eu grito, às vezes em silencio, mas que eu grito eu grito.

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4 Respostas

  1. Muito bom meu camarada; e só grita de fato quem depende unicamente de Dele; e que cada um grite a seu modo sem tentar ganhar Deus na base do grito.
    abraços…

  2. Então gritemos juntos com o U2!

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